Exercícios poéticos, apaixonados e patéticos: pequenos mergulhos e vôos, para compartilhar...

27 de abr de 2007

Triangular...



Entre tristezas e êxtases
transitamos
mas nem sempre habitamos
os abismos ou ápices
da ondulante emoção:
existe um terceiro espaço
entre-lugar volátil, duvidoso
híbrido, enevoado, nebuloso
uma triangular abertura
ou fresta, canal, passagem
limiar, lugar de luzes e doçura
bruma leve onde dança a aragem
e balança livre o pêndulo do tempo
qual mensageiro-mágico-dos-ventos
anunciador de imprevistos e surpresas
no tilintar dos musicais movimentos
réstias de sol matinal, delicadezas
retalhos de céu anil outonal
janelas de cortinas rendadas
pontes, portais e entradas
onde repousam as asas
amantes de luz e azul
onde renascem as almas
sensíveis, suaves, serenas
libertas de segredos ou medos
prenhes de seiva vital
reluzentes de ternura
e cristal...


***Dedico este poema à linda Leila Lopes,
alma luminosa que capta e traduz em suas imagens e palavras os sinais da doçura divina presentes no mundo, lugar de tantas ambivalências, paradoxos e mistérios...

Seu trabalho pode ser visto em:
Palavra e Destino
In Margens
(ver lista de links ao lado)

25 de abr de 2007

Asas e censuras...


...Poderias, porventura, me recriminar
pela profundidade da ternura
que palpita em ondas de saudade insistente?...

...E, acaso, deverias me acusar
pela plenitude da entrega, inteira,
por ofertar a ti meu coração, sem reservas?...

...Poderias, será, me censurar
pela completa e integral confiança
depositada em ti, alma amada, alada e aflita?...

...Poderia eu te repreender, amor,
por teres te atrevido a voar mais longe
mais livre e desejante de aventuras?...


...Deveria eu te criticar, meu bem,
pela intensidade móvel e complexa
dos coloridos entrelaçamentos de amores?...

...Poderia eu reclamar, minha doçura,
de tuas asperezas e ausências, apenas
porque prefiro doçura e aconchego constantes?...

...Deveríamos nós desistir, acaso,
de acreditar ou de insistir no possível
dos afetos, dos sonhos, das asas
e nos arrepender do vôo encantado?...

...Ou, simplesmente, vibrar e celebrar
as lembranças mais doces, memórias
dos olhares cintilantes e assombros
do prazer de habitar, por um tempo
mundos e jardins azuis compartilhados?...

23 de abr de 2007

...germinar...


...Outro outono em nossos ciclos, tempos e estações... folhas que se avermelham, e caem, rubras, douradas, dançantes, preparando a terra para novas sementes, flores e botôes... Dormem e sonham as borboletas...

22 de abr de 2007

Poema-ponte-passagem



POEMA: porta-pulsão
palco-porto-paixão
parede-espelho-escudo
violino-violeta-veludo...

POEMA: ponte-passagem
percurso-rumo-viagem
miragem-paisagem-doçura
delírio-vertigem-ventura...

POEMA: poço-fenda
abismo-teia-trama
tecido-rede-renda
fagulha-fogo-chama...


POEMA: pétala-pérola
pólvora-pedra-pluma
ostra-concha-casulo
onda-cascata-espuma...

POEMA: planeta-poeira
estrela-espaço-espasmo
estudo-cometa-espiral
desejo-orgia-orgasmo...

POEMA: gatilho-explosão
seiva-sangue-alquimia
trânsito-luz-infusão
êxtase-paz-epifania...

POEMA: sonho-constructo
devaneio-desenho-invenção
semente-utopia-gérmen
energia-cosmos-tesão...

12 de abr de 2007

Veladuras...



Palavra-asa
palavra-pena
palavra-pluma

Palavra-véu
palavra-brisa
palavra-bruma

Palavra-céu
palavra-chave
palavra-chão

Palavra-pó
palavra-massa
palavra-pão

Palavra-flecha
palavra-faca
palavra-fogo

Palavra-alvo
palavra-dardo
palavra-jogo

Palavra-fio
palavra-linha
palavra-laço

Palavra-risco
palavra-fenda
palavra-traço

Palavra-pólen
palavra-sêmen
palavra-flor

Palavras vãs
vôos-viagens
ou veladuras?

Palavras-tramas
rendas de sonhos
ou tessituras

Vestindo vãos
driblando a dor
com urdiduras...



*Dedico este poema à Ana Guimarães,
por ter sido "inspirado" após a leitura de seu poema "Adição", que pode ser lido em:
http://www.veropoema.net

10 de abr de 2007

...pólens...


...As pessoas continuam procurando respostas para a pergunta “o que é o amor?” ...
...Penso que amar a Vida é insistir em semear sonhos e paz, é teimar em tecer fios e rendas de ternura, num mundo corroído pela desesperança e impregnado de amargura...
...É estender a mão e ofertar pão, delicadeza e doçura, em vez de ir ao shopping comprar coisas caras, tentando (em vão!) preencher os vazios e ocos da alma com ilusões e compulsões consumistas...
...Amar a Vida é confiar na potência do afeto e do tempo, apesar dos apelos e exigências do mundo para que desistamos de investir no SER e nos rendamos às atratividades e armadilhas do TER... Amar é, a despeito de todos os espinhos e agruras, espalhar pétalas-palavras ao vento, pólens, perfumes e pulsões de candura!...
...Amar é desejar a preservação da própria Vida, deixando fluir a seiva do amor, tentando desendurecer corações ressequidos pelo excesso de ganância, vaidade ou violência... É, lembrando Murilo Mendes, encarar e resistir aos monstros do medo, da miséria e da alienação do mundo mecanizado e individualista... É inventar e proliferar flores e sentidos, para dar impulso vital à re-criação de si e de outrem...
...Portanto, se temos que voltar ao pó e ao chão, que sejamos, antes disso, solo de com-paixão, poeira de poesia!!!

9 de abr de 2007

fios...




Em forma de fios
cintilantes, cristalinos
escorre a seiva vital
por caminhos curvilíneos
vaza em sonhos e sangue
em mel, lágrimas, desejos
percorrendo labirintos
nos corações humanos
entre terras e céus
sóis ou chuvas azuis
fazendo balançar
a leve nau da alma
conduzida por estrelas...

4 de abr de 2007

Flor-de-Fogo



















Onde andará a chama incandescente
Centelha exuberante escondida
Faísca-flor-fugaz e fulgurante
A flor-solar-vivaz e atrevida?...
Onde andará a chave escarlate
A pérola da concha renascida
O brilho-luz do carmim-alyzarim
A cor, a cintilância esquecida?...
Onde estarão as leves asas rubras
A translúcida-volátil flor-da-aurora
O esboço transparente, mel do paraíso
A doçura lírika-rosada de outrora?...
Onde estará a flor-de-fogo flamejante?...
Vaporosa e perdida em abismos fundos
Viajando em outros céus e mundos
Sob mil véus, fagulha adormecida?...
Onde os riscos-lampejos das pétalas
O néctar doce da corola dourada
O segredo da flor-romã-encantada
O rio de aromas, seivas, matizes?...
Estará presa ou solta no espaço
A brincar entre nuvens, espirais e raízes
A espiar o esconde-esconde das luas
Das tempestades, das ondas, dos ventos?...
Frágil-forte flor-de-fogo flutuante
Semeando novas eras, novos tempos sem agruras
Desenhando seus caminhos finos-curvos
Sem espinhos, sem tristezas, só ternuras...


OU:

Onde andará aquela chama
Aquela centelha escondida
Faísca-flor incandescente
Aquele sinal-sol de vida?...
Onde estarão as chaves
A pérola da concha nascida
O brilho do alyzarim
A cor cintilante esquecida?...
Onde estarão as asas
Rubras da flor-da-aurora
O esboço do paraíso
A doçura rosada de outrora?...
Onde andará a flor-de-fogo?...
Em abismos profundos perdida
Viajando por outros mundos
Sob mil véus adormecida?...
Onde os riscos-estrias da pétala
O néctar da corola dourada
O rio de perfumes e seivas
O segredo da flor encantada?...
Estará solta no espaço
A brincar com estrelas e nuvens
A espiar o esconde-esconde
Das luas, das ondas, dos ventos?
Flor-de-fogo flutuante
Desenhando seus caminhos
Semeando novos tempos
Sem agruras, sem espinhos...

(esta era a primeira "versão", quase um esboço, do poema...
Às vezes, acabo gostando mais do rascunho!...
Digam o que acham...)