Exercícios poéticos, apaixonados e patéticos: pequenos mergulhos e vôos, para compartilhar...

30 de abr de 2013

"Cada um tem a idade do seu coração."

(Alfred d´Houdetot)

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*Pintura de Tadeo Zavaleta

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25 de abr de 2013

Apaixonamento...

"O estar apaixonado consiste num fluir da libido do ego em direção ao objeto. Tem o poder de remover as repressões e de reinstalar as perversões." (Freud, Sobre o Narcisismo).

Apenas quando "sai de si", do isolamento narcísico, quando se apaixona, deseja e ama, o sujeito consegue viver de verdade, superando seus medos, recalques e neuroses, sua "normalidade" apática e asséptica, hoje cada vez mais comum no mundo contemporâneo.

Apaixonamento (apaixonar-se, enamorar-se) faz o sujeito sair da caverna, da frieza, da morbidez, da solidão, da indiferença - sair da "normalidade" mortificante comum na atualidade, num mundo de mulheres e homens cada vez mais narcísicos e menos amorosos.

Amar e ser feliz é "fazer diferença", é permitir-se ter prazer, pathos e poesia!!!

(Ana Luisa Kaminski)


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(Desconheço o nome do autor da pintura)

21 de abr de 2013

Amor, flexibilidade e perdão

Apenas quem é capaz de atentar para os próprios erros, antes de julgar os alheios, também está apto a amar com toda a potência. O sujeito amoroso e maduro consegue perdoar as falhas dos outros e aceitar suas imperfeições, escapando à rigidez egóica daqueles que, inflexíveis, criticam os tropeços de outrem, sem perceber os próprios defeitos e deslizes. Se não existissem sujeitos capazes de perdoar e amar com generosidade, ninguém mais acreditaria, ninguém jamais confiaria ou amaria, já que todos os seres humanos erram e tropeçam muitas vezes durante a trajetória vital.

Quem consegue perdoar também é capaz de amar com grandeza, aceitando a imperfeição do outro e priorizando suas qualidades e virtudes, o que só é possível a partir do reconhecimento da própria incompletude, ou seja, ao desfazer-se de um ego rígido e idealizado que impede o sujeito de ver ou ir mais além. Quem é incapaz de perdoar quase sempre é aquele que, com a visão embotada pelo excessivo orgulho, se esquece de quantas vezes foi perdoado, valorizado e amado, apesar de seus próprios fracassos e erros...

Portanto, apenas o sujeito capaz de perdoar e aceitar a própria incompletude e também a do outro está capacitado para amar com maturidade, apto a cultivar amores e vínculos duradouros, sem o empecilho do excessivo narcisismo ou da inflexibilidade do ego, às vezes erroneamente confundidos com força.

(Ana Luisa Kaminski)

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*Fotografia: Arnold Genthe, 1915

6 de abr de 2013



A POTÊNCIA DAS PALAVRAS

Palavras têm força, poder e magia: podem acariciar ou ferir, apaziguar ou ofender, machucar ou curar, restaurar corações, asas e almas, ou empurrar o outro para o precipício.

As palavras podem ser usadas como armas, para o bem ou para o mal: se são amáveis e empregadas com cuidado, suavidade e sabedoria, podem encorajar, reanimar, fazer sorrir, reluzir, iluminar! Porém, quando são rudes ou ferinas, usadas com descuido, raiva e aspereza, podem magoar, ultrajar, causar lágrimas, destruição e dor.

Algumas pessoas usam as palavras de modo infantil e inconseqüente, sem refletir sobre o que as mesmas provocam... mas também existem sujeitos que, conhecendo sua potência, usam-nas de modo consciente, criativo e sensível, sabendo que podem provocar efeitos de bem ou mal-estar, semear alegria, luz, magia... ou desprazer, tristeza e sofrimento.

De acordo com seu uso, as palavras podem inspirar, despertar ou destruir um grande amor, uma pessoa, um sonho, uma vida, uma história. Podem produzir encanto e poesia - ou desencanto e melancolia. Podem traduzir e transmitir o mel ou o fel dos seres que as emitem, podem revelar seus mais íntimos desejos e segredos, refletir seus medos, indicar os anseios e esperanças de cada sujeito.

Palavras são sementes, são esboços, são registros que produzem e preservam a ternura, a beleza e a doçura - ou destilam raiva, veneno e amargura. Palavras são presentes, bênção ou maldição. Em algumas pessoas elas surgem com tonalidades mais constantes, coerentes e harmoniosas, criando algo como uma melodia, enquanto em outras podem se manifestar de maneira mais instável, apresentando colorações escorregadias, vacilantes, deslizando entre sentimentos de amor e ódio que, por vezes, causam danos nesta freqüente oscilação ou desafinação.

A escolha do modo de usar esta grande e notável potência - seja com generosidade, delicadeza, amor e elegância, seja com agressividade, egoísmo ou arrogância - depende das singularidades, fantasias e também dos fantasmas e da maturidade de cada sujeito, sempre já indicados no teor, nas nuances e sutilezas do próprio discurso.


(Ana Luisa Kaminski)

3 de abr de 2013




Cores, traços, rastros...

Se queres conhecer o caráter de alguém, atenta para o seu discurso e o modo como usa as palavras: isto diz muito sobre o sujeito. Sobre o que e como fala? Quais são os temas que aborda e como discorre sobre os mesmos? Quais seus assuntos prediletos? Como se refere às pessoas com quem convive - amigos, familiares, colegas ou amores? ... Como já observou Sigmund Freud, o que um sujeito fala sobre outro revela muito mais sobre si mesmo do que sobre aquele do qual fala.

Outro modo de descobrir as nuances e cores do caráter de alguém é examinar, além da maneira como usa as palavras, seu modo de ver o mundo, as pessoas e a vida. É uma extensão do primeiro ítem: o sujeito vê a vida, as pessoas e o mundo com um olhar amoroso, com esperança e alegria, com gratidão, com leveza, beleza, poesia e graça? Ou com um olhar cético, malévolo e amargurado?... Muito projeta de si, de seus medos, sonhos, sentimentos, neste modo de "olhar".

E, falando em olhar, é muito importante observar o que dizem os seus olhos: que sentimentos transmitem? Ternura, alegria, coragem, entusiasmo, serenidade... ou amargura, tristeza, angústia, malícia, raiva, frustração?... Os olhos dizem muito sobre a alma dos seres humanos, traduzem coisas que às vezes as palavras não dizem, o olhar pode dizer o contrário do que diz o discurso, ou confirmá-lo.

Além disso, pode-se prestar atenção ao modo como o sujeito trata as pessoas: é gentil e generoso com os outros, mesmo quando não tem nada a ganhar com isso, apenas para exercitar a amabilidade? É cordial, afetuoso e paciente, procurando transmitir algo bom às pessoas com as quais convive? Ou apenas sabe ser gentil quando crê que obterá vantagens, mas impaciente e, às vezes, até rude, quando acredita que está sendo perturbado ou desrespeitado? Consegue manter a calma e a delicadeza mesmo em momentos de tensão, ou logo que se sente inseguro revela exagerada rispidez?...

Outra pista para se conhecer o caráter de alguém é analisar os traços que esta pessoa deixa ou está deixando, ao longo do caminho, que legado ou que marcas vão ficando, a partir de sua trajetória vital. Se tem amigos, quem e como são estes amigos que elege? São amizades duradouras ou sempre muito voláteis? Se tem filhos, qual é o tom predominante no caráter de seus herdeiros: são benignos, amorosos, equilibrados - ou egoístas, imaturos, perniciosos?... O que o sujeito transmite ao redor, o que semeia, o que deseja, o que busca, como desfruta seu viver? ...

E, quando comete erros, este sujeito admite, reconhece sua falha ou fraqueza, procura se corrigir e melhorar - ou é do tipo que dificilmente admite um erro, que acredita que é infalível, ou não consegue admitir que falhou, por excesso de orgulho? ... É uma pessoa que destaca o melhor, ou o pior, quando se refere às outras? É alguém que sabe valorizar as qualidades alheias, mais do que criticar suas imperfeições? Consegue perdoar? Ou é do tipo que maximiza as falhas alheias e minimiza o que os outros tem de melhor?...

Observando com cuidado todos estes aspectos e sutilezas de uma persona, pode-se traçar um mapa ou diagrama de seu caráter, com suas nuances, cores, matizes, seus traços e tonalidades predominantes, sejam luminosos ou sombrios, positivos ou negativos, ainda que sempre existam algumas manchas e mesclas. Afinal, ninguém é perfeito, amável e justo, correto ou irretocável, o tempo todo! Mas é possível ter uma ideia, algo como um mapeamento, um desenho, a cores ou em branco-e-preto, do caráter de uma pessoa, daquilo que diz o íntimo de sua alma, daquilo que canta o seu coração, daquilo que modela o seu ser visível e invisível. É possível até imaginar como será o futuro de cada um , que frutos colherá, que fim terá, por mais que o amanhã seja desconhecido e imprevisível.

As cores, os traços, os rastros que cada um terá deixado ao final, serão a confirmação do que o sujeito semeou, cultivou, desenhou e pintou sobre a Terra, enquanto teve seu tempo para respirar, pulsar, amar, irradiar energias. Alguns, apesar da melancolia, deixam belos legados poéticos, uma obra valiosa, seja qual for a área para a qual tenham se dedicado, desde que tenham sido benignos, generosos, que tenham conseguido ir além de si mesmos. Outros, apesar de um aparente brilho, deixam pouco de valor, do ponto de vista mais humano, emocional, espiritual. E há aqueles que passam pelo planeta quase sem deixar rastro, embora cada pequena vida tenha, sem dúvida, seu valor. Aliás, às vezes, existe muita potência naquilo que parece insignificante, e pouca naquilo que parece grande e forte.

Mas, finalmente, se estás em dúvida sobre o caráter de alguém, atenta para sua fala, para seu olhar, para seus gestos e para os traços que vai deixando, para o que vai semeando, para os frutos que vão ficando pelo caminho... E saberás o que precisas saber.

Ana Luisa Kaminski



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