Exercícios poéticos, apaixonados e patéticos: pequenos mergulhos e vôos, para compartilhar...

8 de abr. de 2011

PIANO ONÍRICO



O HORIZONTE DAS PALAVRAS

Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.


(António Ramos Rosa in "Acordes")



É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
De obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar .

(Antonio Ramos Rosa)







IMAGEM: "PIANO ONÍRICO". Pintura de Ana Luisa Kaminski

23 de mar. de 2011

Pianos, palavras e pássaros...



Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo chama-se agora aqui o sono da erva a ligeireza livre
a nuvem sobre a página.



(Antonio Ramos Rosa)


Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.


(Julio Cortázar)


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu alimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra)


(E. E. Cummings)


A SOLIDÃO E SUA PORTA

Quando nada mais resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar,
Quando nada mais interessar,
Nem o torpor do sono que se espalha;
Quando, pelo desuso da navalha,
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar,
Deixando-te sozinho na batalha,
A arquitetar na sombra a despedida
Do mundo que te foi contraditório,
Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo o que é insolvente e provisório,
E de que ainda tens uma saída:
Entrar no acaso e amar o transitório.


[Carlos Pena Filho]



Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra...


(Antonio Ramos Rosa)

17 de mar. de 2011

Silêncio e som...


Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.


Manoel de Barros


Mel silvestre tirei das plantas,
Sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.

(Trecho de "Distribuição da Poesia" de Jorge de Lima.)



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei.
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso.
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

(Sophia de Mello Breyner)

11 de mar. de 2011

Solfejos, sonhos, ressonâncias...


SOLFEJAR

‎...E os sonhos passearam por aqui, deixando ressonâncias e poeiras de amores sobre o piano... luzes banhando retalhos do tempo, partituras de memórias...solfejos de lembranças... suavidades, sôpros, pulsações... (ALK)



PARTITURAS

Partículas de sonho, amor e luz
pousam sobre o piano nu
poeiras de estrelas, pulsações e sons
vagueiam pelo ar no eco dos instantes
flores fluidas, melodiosas, fulgurantes
flutuam nos pensamentos leves e alados
dançam e ressoam as partituras translúcidas
na pele, na memória, no veludo desenhados
voluptuosos versos, voláteis e errantes
na inebriante poesia e ânsia do infinito
...


(Ana Luisa Kaminski)

Les particules de rêves , d 'Amour et de lumière
déposent sur le piano nu
des poussières d'étoiles,
pulsions et sons dérivent dans l'air du moment
fleurs fluides, mélodieuses, flamboyantes
flottent dans les pensées, légères et ailées,
dansent et résonnent,translucides....
sur la peau, dans la mémoire ,
le velours conçu.........
vers voluptueux, volatiles et errants,
dans la poésie enivrante et nostalgie de l'INFINI......


(Tradução de Alda Lopes)




SURDINA

Quem toca piano sobre a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som,descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...


(Cecília Meireles)
In Flor de Poemas, 1972


ERRÂNCIAS E RESSONÂNCIAS

Da misteriosa trajetória vital, o que perdura?...
Partituras do amor, diagramas da dor, filigranas de alegria... registros de saberes, restos de memórias, poeiras de poesia...rastros de sentires, fragmentos das jornadas, farelos de histórias... sôpros de sonhos, sementes de desejos, palimpsestos de paixões... cicatrizes de conquistas, reflexos de segredos, lampejos de emoções, colapsos e vitórias... partículas de prazer, leves lembranças de luz, ecos de violões... traços de terror, marcas da coragem e estilhaços dos medos... vestígios de aventuras e vôos,ressonâncias de pianos, resquícios de passaredos...
.


(Ana Luisa Kaminski, março/2011)


me queimar em água
a espalhar nas veias
até o mar de fogo
de onde veio
essa dor
essa luz
esse ser
que não passa
de um meio


Alice Ruiz

27 de fev. de 2011

Fios de luz...


Fio de luz

Sai da sombra
Vem prá luz
Que vai nascer
Sai do medo
Olha o dia
A amanhecer
Sai do frio
Olha o fogo
A acender
Acender

Sai de casa
Sai de ti
Desata os nós
Solta os versos
E a coragem
Solta a voz
Olha o sol
Que vai chegar
Pra te aquecer
Aquecer

Como um fio de lã
A tecer o amor
Como um fio de luz
A bordar a vida

Que vai chegar
Olha o sol que vai chegar
Pra te aquecer...

(Samuel Quedas/Lúcia Moniz)




De olhos bem abertos


Sua presença é uma carícia de dedos que vêm do sonho e, depois, rápidos como um animal alado, vazam as nuvens sem pistas. O onírico não deixa rotas, não tem rosa-dos-ventos, não desenha pontos cardeais, é apenas vontade, um desejo que se levanta como cortinas transparentes. Espio entre as dobras, há uma fresta de realidade onde todo o imaginário se eleva. Montanhas recortadas onde falta horizonte, uma paisagem de filmes e livros. Você acredita? Eu acredito nas nossas possibilidades como a promessa que se desprende do incenso, uma crença em cores, palavras, mantras. Uma pacificação que me invade quando você me responde. Um desassossego quando há lacunas entre as sentenças.

Se você não fala, todo silêncio grita sua falta. É preciso manter este diálogo que quase já alcança a primavera. Nos comunicamos entre as estações, numa renovação de frases que cruzam o espaço onde as presenças são nuvens que se elevam das florestas, uma linguagem indígena que escapa dos locais improváveis onde me encontro, onde você se encontra, sem que se aviste um endereço. Há entre nós um desejo insólito que cresce, sem que eu me prenda a seu abraço. Nestas manhãs em que o sonho se despede como um delírio de absinto, abro os olhos e sinto.


(Célia Musilli)




noturno

é noite sobre as folhas
da violeta que transita
sua delicada beleza
no chão do espaço

plena nudez de
luas e nuvens sobre
um cercado de luzes


(Lau Siqueira)

18 de fev. de 2011

Piano, piano, pianíssimo...

Suavidades
plumas
sonhos

flutuam na alma alada

em torno
por dentro
ao redor

flores fluidas, sutilezas
poeiras estelares, luz
borboletas etéreas-e-ternas

bailando
girando
pousando

pianíssimo, nos pensamentos

voláteis
violáceos
alizarin e azuis...


(Ana Luisa Kaminski)



Fotografia: Analuka por Sindri Mendes






26 de jan. de 2011

Alada...

"... a vida simplesmente é poesia. Inconscientes, nós a vivemos dia-a-dia e fragmento por fragmento, mas, em sua inviolável integridade é ela que nos vive, ela que nos leva...".

(Lou Andreas-Salomé)


A PALAVRA

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


(António Ramos Rosa)





SOB O CÉU

O que nos cerca esconde suas surpresas
além do que se espera
além do que se sabe.
Não conhecemos tudo
nem de todo uns aos outros.
Um teto de silêncio nos limita
da música inaudível das estrelas
e nos contém pelas luzes mais distantes.
Debaixo desse céu
no entanto
as nossas sombras caminham de mãos dadas.


(Dade Amorim)



Gosto de olhar as pedras e os desenhos do vento
na superficie da água, gosto de sentir as modificações
da luz quando o sol está desaparecendo do outro lado
do rio, gosto de sentir o dia se transformando em noite
e em dia outra vez, gosto de olhar as crianças brincando
no corredor de entrada e das palmeiras que existem
no meio da minha rua — gosto de pensar que vou sempre
ter olhos para gostar dessas coisas, e por mais sozinho
ou triste que eu esteja vou ter sempre esse olhar sobre as coisas.

(Caio Fernando Abreu)
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IMAGENS: Ana Luisa Kaminski fotografada por Sindri Mendes
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Convido-os/as a conhecerem também meu novo blog:
Arte Onírica de Ana Luisa Kaminski
www.arteanaluisakaminski.blogspot.com

Fantasia...


RETRATO

Quando enfim encontro o meu sentir
que andava por aí, sem ter descanso
percebo que sou qual gota d'água.
Frágil e pequena.
Abro a mala dos sonhos,
recorto os pesadelos.
Aceito os desafios
de abraços sem renúncia,
seguro no varal da memória
a delicadeza.
Deito-me mansa e sombria.
Estou que é só fantasia.


(Solange Rebuzzi)




IMAGENS: Ana Luisa Kaminski fotografada por Sindri Mendes

21 de dez. de 2010

Amar é...

‎"Aimer, c'est ..
...entrevoir la lumière à travers l'obscurité..."

(ALK)

AMAR é...
...entrever a luz através do nevoeiro...
...vislumbrar as cores do jardim, ao espalhar as sementes...
...acreditar que as árvores florescem após um rigoroso inverno...
...perceber a preciosidade dos bons momentos já vividos...
...aventurar-se ao vôo, equilibrando cautela e coragem!...

(Ana Luisa Kaminski)


"Que a força da Arte nos liberte e enalteça!
Que o amor propague o amor, e seja fecundo."

(Staëll Di Lukka)


"Com uma vida tão curta, com uma fonte de energia tão pequena, é simplesmente estupidez desperdiçá-la com tristeza, com raiva, com ódio, com ciúme. Aproveite a vida com amor, aproveite-a fazendo algo criativo, com amizade, com meditação. Faça com a sua energia algo que o eleve. E quanto mais alto for, mais fontes de energia estarão disponíveis para você."
(OSHO)


Pegue um raio de sol e faça-o voar lá onde reina a noite.
Descubra uma fonte e faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue uma lágrima e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue a coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue a esperança e viva na sua luz.
Pegue a bondade e doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça-o conhecer ao mundo.


(Mahatma Gandhi)


“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade”.
(Carlos Drummond de Andrade)


IMAGENS: PINTURAS de ANA LUISA KAMINSKI e STAËLL DI LUKKA

10 de dez. de 2010

Matizes e movimentos

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem...


(Guimarães Rosa)


‎"L'Amore è quello che mi fa volare in cielo e camminare sulla terra. L'Amore fa di me una persona viva...e la Poesia mi porta al luogo in cui il cielo e la terra sono la stessa cosa!"

(Pietro Dellova, in SCARPE DA DONNA, 2010)


MATIZES e MOVIMENTOS

Nos céus e nos mares da alma
misturas de mundos, matizes
movimentos, marés, melodias
fulgurações, cintilâncias
medos e emoções, harmonias...
Nos intervalos, nas notas, nas teclas
nas asas, pausas, aberturas
nos sonhos e acordes, balanços
prazeres, traços e ternuras
afinações e flores, fantasias...
Nos desejos, riscos e rastros
alizarin, lilases, violetas
espaços e tempos, loucuras
gôzos azuis e róseos, alegrias
nos vaivéns e viagens, nos ventos
na brevidade das borboletas...

(ANA LUISA KAMINSKI)


Matices y Movimientos

En los cielos y mares del alma
mundos entrelazados, matices
movimientos, mareas, melodías
fulgurantes, centelleantes
miedos y armonías...
En los intervalos, notas o teclas
En las alas, pausas, aberturas
En los sueños y acordes,
placeres balanceados
trazos y ternuras
flores perfectas, fantasías...
En los deseos, surcos y rastros
alazanes, lilas, violetas
Espacios y tiempos, locuras
gozos azules y rosas, alegrías
En los vaivenes y viajes, en los vientos
en la fugacidad de las mariposas...

(Tradução de IVÁN QUEDAZA)


AMAR COM ARTE

Coragem existe nos corações capazes de confiar, de amar, se entregar, fulgurar, perdoar, se arriscar e ver (sempre) o melhor nos seres amados!!!

A partir da prática do perdão e do cultivo constante da doçura, do respeito e da gratidão, é possível amar com arte e coragem. Amando com coragem, constância e delicadeza, existe lugar para alegria e luz na alma!!!

Amar com arte e coragem abre os portais da sensibilidade e liberta as asas da criatividade no ser.

(Ana Luisa Kaminski, primavera/2010)

29 de nov. de 2010

Horizontes...

Tempos atrás, postei este lindo texto de Lara Lunna aqui no blog. Hoje, publico-o de novo, pois de meu ponto de vista, ela estava especialmente "inspirada" quando teceu estas linhas!... Espero que apreciem.

HORIZONTE

Na vida encontro tantas coisa boas. O sol amanhecendo, escapulindo docemente e tingindo de dourado, rubi e turquesa a amplidão, a chuva que faz com que os passarinhos abram as asas, bico e peninhas para recebê-la em si, gorjeando de contentamento, além das plantas que parecem cantar a cada gota-dádiva recebida.
Poderia enumerar cada um destes milagres,todo momento, horas e dias, no entanto preciso te dizer que o que sempre me intriga na vida, além do constante maravilhar, é pensar o horizonte.
O fato perene é que de onde estiver e para onde voltar minha face, na direção de todos os pontos cardeais, sempre há um horizonte cheio de possibilidades, que parece esperar a partir do meu primeiro dia de vida. E ele está e sempre esteve lá.
Sei então que poderia caminhar em sua direção, de qualquer ponto, por toda a vida e quanto desejasse para, quem sabe um dia, conhecer uma lição prática de infinito. Estarei no ponto de partida, que é também o de chegada, que nos ensina que no dia em que seguirmos atrás do horizonte, princípio e fim se fundem, confundem e já não perduram mais quaisquer destes conceitos além do infinito, contínuum.
Talvez. É, quem sabe também seja este o conceito de vida. Talvez algum dia, sabe-se lá em que milênio, um "haja luz e houve luz" deu início a esta minha ou tua existência terrena para que sigamos perpetuamente, em linhas retas, abauladas, circulares, inteiras ou quebradas - não importa - vencendo ciclos, em direção ao horizonte telúrico, cósmico, sabe-se lá em que dimensão - já que são tantas - além das três que conseguimos compreender.
Sim, o horizonte é tão instigante quanto mágico, miraculoso. Minha definição é modesta diante de tanta grandeza. Faltam sinônimos, adjetivos. Mas ainda posso pensar, e para o pensamento não há limites. E por não ter limites, tanto para o pensar quanto para o desejo, me ocorre neste instante que de nada me valeria a imortalidade se não pudesse levar comigo certa dádiva maravilhosa. Pois, das incríveis mutações de nossa matéria, no surgir e desfazer-se, a cada ciclo, o único bem que poderemos manter na imortalidade são os sentimentos, o que pudermos sentir.
Destes, o amor é a benção absoluta. E é este que me serve, que espero, para o qual vivo. O amor, em todas suas manifestações. O supra-sumo da herança divina que há em cada um de nós e que, antes e depois que o fôlego da vida nos fugir, permanece e nos acompanha. Para sempre e sempre.
Interessante o vagar esgazeado dos pensamentos. Comecei no horizonte e terminei no amor. Como no infinito nada se finda, comecei do amor e...sigo para ver onde vai dar.

(TEXTO de LARA LUNNA)

26 de nov. de 2010

Olhar amoroso


O segredo de ser feliz consiste em extrair prazer das pequenas coisas, perceber os pequenos milagres do dia-a-dia, não esquecer do valor de cada instante, pois não sabemos quanto viveremos...

Muitas vezes, engana-se ao acreditar que a "felicidade" depende de possuir muitos bens materiais, conforto ou fama, ou de recebermos bastante amor e atenção dos outros... A verdadeira alegria nasce no coração de quem sabe apreciar e valorizar os milagres cotidianos, pulsa e vibra na alma de quem descobre que é ofertando amor, generoso e desinteressado, em suas múltiplas variações, que o receberemos de volta, além de obtermos mais saúde (física, mental, emocional e espiritual) - do que depende, aliás, grande parte de nosso bem-estar, disposição e força criativa!

O modo de "ser", "ver" e "sentir", portanto, parece mais importante do que o "ter", a não ser que estejamos falando de ter este olhar benigno, grato e amoroso!!!




DEDICO ESTA POSTAGEM AOS MEUS PAIS, BERNARDO E DÓRIS, POR TEREM ME ENSINADO COM SEU EXEMPLO O SEGREDO DE SER FELIZ, ATRAVÉS DO EXERCITAR CONSTANTE DO "OLHAR AMOROSO" QUE NOS FAZ PERCEBER E VALORIZAR OS MILAGRES E PRESENTES COTIDIANOS.

1 de nov. de 2010

Pulsações


Sôpros de vida
suavidade, cores, sons
pinceladas e pulsações:

A cada manhã, nova luz:
a vida se recompõe
se reinventa e refaz

Pétala por pétala
sílaba por sílaba
átimo por átimo

de amor e emoções
redesenhadas na palavra
escrita, dita ou sussurrada
que teço e bordo, incansavelmente, para ti...



(Ana Luisa Kaminski)

"BORBOLETA AZUL MUSICAL". Pintura de Ana Luisa Kaminski
............................................

A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada


(Adélia Prado)

27 de out. de 2010

Pequenas reflexões kaminskianas sobre o Amor...


Dias atrás, alguém que amo me disse que é durante situações difíceis, penosas ou tensas que podemos descobrir quem realmente nos ama, a partir de suas atitudes e reações... e então, pensei bastante sobre a verdade destas simples palavras. De fato, é quando passamos por apuros, ou quando falhamos e estamos frágeis, que descobrimos se alguém nos ama, realmente!... Nestes momentos, algumas pessoas podem ficar indiferentes ou frias, podem ser cruéis ou zombeteiras, podem até nos fazer cair mais um pouco ou pisar sobre nós, outras talvez nos lancem um olhar cínico ou nos desprezem... Entretanto, as verdadeiramente amorosas, estendem a mão, nos ajudam a levantar, tratam de nossas feridas, nos reanimam, procuram mostrar que existem modos de aproveitar o tropeço e até a queda como aprendizado, como chance de aprimorar o ser... Enquanto alguns se mostram insensíveis ao nosso sofrimento e angústia, e estão por perto apenas nas horas fáceis, leves e alegres, outros, mais leais, partilham dores e prazeres, de modo desprendido, mais maduro e generoso...


Quem ama, de fato, não nos desdenha na hora em que mostramos as facetas menos belas ou mais imperfeitas do ego, mas continua vendo e valorizando o que temos de melhor e precioso – e nos lembra disso, mesmo que nosso narcísico eu esteja partido em mil pedaços e a tola vaidade humana, estilhaçada!... O ser amoroso ajuda a catar os cacos e rejuntá-los, participa da reinvenção do caminho, do destino e da alegria.


Uma amiga querida lembrou-me destas palavras sensíveis e sábias de Clarice Lispector: “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Seja qual for o sentido ou significado que damos à nossa viagem vital, certamente a escolha entre amar ou não amar faz muita diferença! Amar os outros, amar nosso trabalho, amar a natureza, amar a própria vida... pode ser o segredo por tantos esquecido, num tempo em que o amor-próprio e o culto ao individualismo parecem exacerbados, ainda que acabem conduzindo, no mais das vezes, à tristeza, à amargura, à decepção... O amor aos outros, por sua vez, se dispensado na mesma medida em que procuramos agradar a nós mesmos, acaba resultando em satisfação íntima, num júbilo invisível, mas reluzente, delicado, que faz brilhar os olhos, adoça e enternece a voz, enobrece os gestos, faz fulgurar as almas e resgata esperanças, valores e singularidades. Viver com amor, exercitar a amabilidade no cotidiano, esta é a maior arte!

4 de out. de 2010

Viagens Azuis e Aladas...

PARIS, FRANÇA


Queridas, queridos!
Estive viajando... e deixo aqui alguns registros fotográficos da deliciosa viagem, para partilhar beleza, colorido, luz e prazer com vocês. Viajar, lançar-nos para outros lugares, nos faz ver o mundo por outros ângulos e prismas, de maneiras diferentes, renovadas... Repensamos a História, as histórias, refletimos sobre os movimentos vitais, embaladas por ventos impregnados de sonhos, arte e emoções...
Desejamos SER e saber mais, buscamos nas alturas e profundidades, nas bordas e núcleos, nos mapas e diagramas, outros sentires e saberes, diversos modos de viver, amar e inventar... Arriscamos novos vôos. Viajar e aventurar-se pode ser, também, arte e artifício, passagem, descoberta de mundos e possibilidades dentro e fora de nós, abertura de infindas e fecundas reelaborações, de matizes, sentires e significações... É vital que estas viagens aconteçam, sempre, nas dobras do nosso cotidiano, para que descubramos, como diria Clarice Lispector, o "extraordinário" escondido nas frestas do banal!...


VENEZA, ITÁLIA

CINQUE TERRE, ITÁLIA


DEDICO ESTA POSTAGEM À CARÍSSIMA LEOA LARA LUNNA, com admiração e afeição aladas e azuis!

26 de jun. de 2010

Cinzas e cintilâncias do cotidiano...

Despertamos para a Vida que pulsa, que vibra, que vaza, que canta, a cada minuto e momento!!!... e adormecemos, às vezes, cobertos por cinzas do cotidiano, que obscurecem o colorido exuberante e vivaz dos instantes, quando sorvidos com intensidade, vontade, paixão!... Talvez, tenhamos que adormecer e despertar, tantas vezes, durante a trajetória vital, simplesmente para não esquecer de nossa fragilidade e força, para nos relembrar, todos os dias e horas, da finitude infinda de tal tessitura: dos fios que nos bordam, nos envolvem e enlaçam, das linhas que nos desenham, conduzem, entrelaçam, da urdidura incessante e mirabolante da história. Talvez, precisemos despertar e adormecer, sonhar, para que sejam reinventadas as cores e esperanças, as cintilâncias que entrevemos nas frestas do dia-a-dia banal...
Assim, vamos vislumbrando as fulgurações do afeto, do amor e da arte, nas aberturas das noites, das manhãs, dos meses, na travessia dos séculos, no girar do mundo, dos astros, das constelações... Quem sabe, nos arrisquemos aos vôos e travessias, e viajemos, à deriva, em alguns momentos venturosos de luminosidade azul-lilás, entremeados de turquesa, alizarim, violeta, e respingados de verde ou coral, em que possamos sentir a alma bailando aos quatro ventos, na direção deste saber insabido e volátil, mas profundo, que nos move, nos instiga, impulsiona!... Contudo, entretanto, todavia... para isso precisamos navegar com coragem, entre cinzas e cintilâncias, adormecer e despertar, alimentar as esperanças, exercitar as asas, todas as noites, todas as horas, todos os dias!!!


TEXTO DE ANA LUISA KAMINSKI
FOTOS: ATELIER AZUL-LILÁS DE LUNNA E LUKKA