Exercícios poéticos, apaixonados e patéticos: pequenos mergulhos e vôos, para compartilhar...

27 de out. de 2010

Pequenas reflexões kaminskianas sobre o Amor...


Dias atrás, alguém que amo me disse que é durante situações difíceis, penosas ou tensas que podemos descobrir quem realmente nos ama, a partir de suas atitudes e reações... e então, pensei bastante sobre a verdade destas simples palavras. De fato, é quando passamos por apuros, ou quando falhamos e estamos frágeis, que descobrimos se alguém nos ama, realmente!... Nestes momentos, algumas pessoas podem ficar indiferentes ou frias, podem ser cruéis ou zombeteiras, podem até nos fazer cair mais um pouco ou pisar sobre nós, outras talvez nos lancem um olhar cínico ou nos desprezem... Entretanto, as verdadeiramente amorosas, estendem a mão, nos ajudam a levantar, tratam de nossas feridas, nos reanimam, procuram mostrar que existem modos de aproveitar o tropeço e até a queda como aprendizado, como chance de aprimorar o ser... Enquanto alguns se mostram insensíveis ao nosso sofrimento e angústia, e estão por perto apenas nas horas fáceis, leves e alegres, outros, mais leais, partilham dores e prazeres, de modo desprendido, mais maduro e generoso...


Quem ama, de fato, não nos desdenha na hora em que mostramos as facetas menos belas ou mais imperfeitas do ego, mas continua vendo e valorizando o que temos de melhor e precioso – e nos lembra disso, mesmo que nosso narcísico eu esteja partido em mil pedaços e a tola vaidade humana, estilhaçada!... O ser amoroso ajuda a catar os cacos e rejuntá-los, participa da reinvenção do caminho, do destino e da alegria.


Uma amiga querida lembrou-me destas palavras sensíveis e sábias de Clarice Lispector: “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Seja qual for o sentido ou significado que damos à nossa viagem vital, certamente a escolha entre amar ou não amar faz muita diferença! Amar os outros, amar nosso trabalho, amar a natureza, amar a própria vida... pode ser o segredo por tantos esquecido, num tempo em que o amor-próprio e o culto ao individualismo parecem exacerbados, ainda que acabem conduzindo, no mais das vezes, à tristeza, à amargura, à decepção... O amor aos outros, por sua vez, se dispensado na mesma medida em que procuramos agradar a nós mesmos, acaba resultando em satisfação íntima, num júbilo invisível, mas reluzente, delicado, que faz brilhar os olhos, adoça e enternece a voz, enobrece os gestos, faz fulgurar as almas e resgata esperanças, valores e singularidades. Viver com amor, exercitar a amabilidade no cotidiano, esta é a maior arte!

4 de out. de 2010

Viagens Azuis e Aladas...

PARIS, FRANÇA


Queridas, queridos!
Estive viajando... e deixo aqui alguns registros fotográficos da deliciosa viagem, para partilhar beleza, colorido, luz e prazer com vocês. Viajar, lançar-nos para outros lugares, nos faz ver o mundo por outros ângulos e prismas, de maneiras diferentes, renovadas... Repensamos a História, as histórias, refletimos sobre os movimentos vitais, embaladas por ventos impregnados de sonhos, arte e emoções...
Desejamos SER e saber mais, buscamos nas alturas e profundidades, nas bordas e núcleos, nos mapas e diagramas, outros sentires e saberes, diversos modos de viver, amar e inventar... Arriscamos novos vôos. Viajar e aventurar-se pode ser, também, arte e artifício, passagem, descoberta de mundos e possibilidades dentro e fora de nós, abertura de infindas e fecundas reelaborações, de matizes, sentires e significações... É vital que estas viagens aconteçam, sempre, nas dobras do nosso cotidiano, para que descubramos, como diria Clarice Lispector, o "extraordinário" escondido nas frestas do banal!...


VENEZA, ITÁLIA

CINQUE TERRE, ITÁLIA


DEDICO ESTA POSTAGEM À CARÍSSIMA LEOA LARA LUNNA, com admiração e afeição aladas e azuis!

26 de jun. de 2010

Cinzas e cintilâncias do cotidiano...

Despertamos para a Vida que pulsa, que vibra, que vaza, que canta, a cada minuto e momento!!!... e adormecemos, às vezes, cobertos por cinzas do cotidiano, que obscurecem o colorido exuberante e vivaz dos instantes, quando sorvidos com intensidade, vontade, paixão!... Talvez, tenhamos que adormecer e despertar, tantas vezes, durante a trajetória vital, simplesmente para não esquecer de nossa fragilidade e força, para nos relembrar, todos os dias e horas, da finitude infinda de tal tessitura: dos fios que nos bordam, nos envolvem e enlaçam, das linhas que nos desenham, conduzem, entrelaçam, da urdidura incessante e mirabolante da história. Talvez, precisemos despertar e adormecer, sonhar, para que sejam reinventadas as cores e esperanças, as cintilâncias que entrevemos nas frestas do dia-a-dia banal...
Assim, vamos vislumbrando as fulgurações do afeto, do amor e da arte, nas aberturas das noites, das manhãs, dos meses, na travessia dos séculos, no girar do mundo, dos astros, das constelações... Quem sabe, nos arrisquemos aos vôos e travessias, e viajemos, à deriva, em alguns momentos venturosos de luminosidade azul-lilás, entremeados de turquesa, alizarim, violeta, e respingados de verde ou coral, em que possamos sentir a alma bailando aos quatro ventos, na direção deste saber insabido e volátil, mas profundo, que nos move, nos instiga, impulsiona!... Contudo, entretanto, todavia... para isso precisamos navegar com coragem, entre cinzas e cintilâncias, adormecer e despertar, alimentar as esperanças, exercitar as asas, todas as noites, todas as horas, todos os dias!!!


TEXTO DE ANA LUISA KAMINSKI
FOTOS: ATELIER AZUL-LILÁS DE LUNNA E LUKKA

5 de jun. de 2010

PASSIONE


PASSIONE ou, PORQUE MINHA AMIGA TEM ASAS
(por Pietro Nardella-Dellova)


Encontrei a amiga em uma manhã de sol, brisa suave e muita vida para viver, pois, afinal, não tenho tempo para morrer entre vampiros, asnos e vias públicas. E ela, então, perguntou-me sobre a palavra passione e seu sentido no modo italiano de viver.

Va bene! Não tente traduzir esta palavra em português, seja do Brasil, de Portugal ou de Angola, nem em inglês britânico e, menos ainda, em inglês americano! Em alemão não é possível sequer pensar em passione. Para o hebraico também não se pode traduzir e, por falta de uma palavra, o rei Salomão escreveu um livro todo sobre passione: o Cântico dos Cânticos (Shir HaShirim)! Enfim, não há tradução para passione! Seria preciso viver alguns anos na Itália, da Sicilia aos extremos alpinos. Seria preciso caminhar entre construções de pedra e ouvir pessoas cantando com suas janelas abertas e passar muito tempo em Napoli, em suas vias estreitas, descobrindo como nascem tenores e, quem sabe, beber em Milano com seu encanto feminino e multifacetado. Seria preciso ir a Firenze e descobrir o que é Rinascimento. Ou, simplesmente, ver um filme, talvez, Cinema Paradiso, Il Postino e Il Poeta ou La Vita è Bella!

Passione no modo italiano inclui variados aspectos, do tipo mergulhar de boca na mulher amada, promover o bem integral da mulher amada, fazer com que a mulher amada voe e, diante disto, aplaudi-la com entusiasmo incontido. É voar com a amada sobre os mares e fazer com que ela veja estrelas um montão de vezes até ficar vermelha e lançada sobre os lençóis com os cabelos esguedelhados – colorida e maravilhosa, como pintura feita à mão. Passione é viver um dia com a amada como se fosse a própria eternidade...

É uma experiência única, singular e linda! Não há esta coisa de chorar pelos cantos, beber até morrer, de magoar-se ou de prantear, transformando tudo em música sertaneja, cachaça e churrasco, isto é, em monólogos, rezas sem fim, pedidos a Santo Antonio e programas de auditório, com gritinhos e tudo. Não, de fato não! A experiência da passione é algo superior, capaz de transformar animais em gente, transeuntes em pessoas – é alguma coisa entre o Jardim do Éden e os desertos dos enfrentamentos humanos. É roubar o fogo de Zeus e entregar, doar, experienciar as musas noite adentro – ainda que isto custe o fígado durante o dia. Não é ficar com uma viola órfica na porta dos infernos chorando nostalgias sem fim e cortando-se os pulsos, mas descer aos infernos, fundo e consciente, dar umas boas porradas em Plutão e trazer Eurídice em beijos tresloucados, sonoros e escandalosamente públicos!



Passione não inclui egoísmo, mas, cumplicidade. Não inclui choro, mas risos. Não inclui oitavada desarmônica, mas a música plena e o canto pleno em afinação absoluta de corpos que se completam na delícia humana! É a experiência do diálogo – não da conversa! É um estado de envolvimento intenso que exige o mergulho na última gota de vinho: o mistério das pérolas escondidas no mais profundo deste mar tinto e bravio! Por isso mesmo, no estado de passione não se perde a última gota do vinho, aliás, nem se bebe vinho em duas taças e, poucas vezes, em uma. É experiência do vinho na boca, da boca na boca, da procura da gota do vinho no umbigo, no abdômen, nas faces, no pescoço, nos lábios, do perfume do vinho no seio desnudo – o movimento de vida! Passione é vida!

Passione é a intensidade com solidariedade. Fazer amor, intenso e sem limites, com amizade. O estado de envolvimento, com prazeres sem fim, mas, sempre, de mãos dadas, juntos, voando juntos. Não há previsão de futuro no modo passione – apenas de carpe diem, daquela intensidade presente que não se perde em prognósticos, futurismos, profetismos, rezas. No modo passione não lemos as linhas das mãos da pessoa amada, tentando ver seu dia porvir, apenas, beijamos as mãos, acariciamos as mãos, apertamos as mãos na intensidade plena do encontro dos corpos presentificados. Nas mãos não ficam linhas nem marcas, mas, impressões indeléveis de ternura, encontro e sabores do corpo inteiro!

Em passione ninguém pensa em morrer de dor ou de sofrimento, ou em arrastar correntes por corredores sem fim! Ao contrário, passione é luz, é salvação, é bênção. O momento máximo que dá sentido a uma pessoa, que a resgata da caverna e da mesmice cotidiana, pois é neste momento que é possível ver-se, encontrar-se e plenificar-se na pessoa amada! Na passione tiramos as asas da mala empoeirada e as colocamos de volta nas costas (e nos pés).

Minha amiga ficou em silêncio, trêmula e com os olhos brilhantes. E eu lhe disse: Hai Capito adesso? Então, ela olhou para suas costas e viu suas asas. Minha amiga tem asas!

Ah, minha amiga, passione nos faz voar, por isso não tem esta coisa de sofrimento, dor e choradeira. Depois que aprendemos a voar não tem mais jeito – é preciso voar sempre! Depois que você reencontra suas asas escondidas naquelas malas estranhas dos comportamentos socialmente compatíveis, sai de perto... Pois, elas grudam em suas costas e se tiver alguém por perto que não voa ou com tesouras nas mãos, ui... As asas grudadas às costas empurram idiotas ao chão, pois elas têm um poder próprio, vida própria, por isso mesmo, quando se abrem as asas o melhor é voar junto ou “vixe, fodeu!”, ou seja, cai a casa, cai o muro, cai a máscara, cai o beco, cai tudo e a vaca vai para o brejo! Asas é o que melhor retrata o movimento da passione! Gostou disso, amiga? Então, olhe para suas costas agora...wow!!! você tem asas! Quem se atreve a colocar você na gaiola? Como esconder esta maravilha que aparece no seu andar e no seu dia? Como prender você? Mulher! Encanto! Fogo! Vida! Inteligência! Voe! Abra suas asas, grandes, abertas e vença os olhares idiotizantes de asnos que passam!

E lembre-se, minha amiga, se alguém quiser ter você, na cama ou no sofá, o melhor a fazer é destruir gaiolinhas e aprender a voar...

Sem asas, ou seja, sem passione, as pessoas definham e perdem o canto. Especialmente a maioria dos homens, que têm medo psicanalítico de Freud e não resistem a cinco páginas de suas obras! Passam longe dele e sequer o mencionam, pois para ler Freud é preciso ter asas e senso de humanidade e, sobretudo, é preciso ter senso de si próprio! Voar é viver, mas, não para todos os homens! Todos não viverão nem voarão – apenas alguns. Porque para voar é preciso duas capacidades com habilidades expressivas. A primeira é ter asas! A segunda, é ver as asas de uma mulher e aprender a voar com ela, pois, somente a mulher pode ensinar o vôo a quem tiver asas. Se um homem souber ver asas em uma mulher, e se tiver as suas próprias asas, aprenderá com ela e voará alto e liberto. Mas, se tiver asas e for cego, suas asas serão sua mortalha e passará seus dias escondido entre arbustos edênicos, nomeando bichos, e terminará fazendo culto ao falo. Sim, o culto fálico é a condenação para quem não vôa, nem enxerga o vôo e, ao contrário, prefere se esconder nas cavernas de sua estupidez!

É no desenho feminino, nas asas femininas, na alma feminina e na intensidade feminina, que um homem pode ser homem completamente, com vôo, liberdade e alma! É ali, e apenas ali, que ele descobre o movimento da passione, o tempo, a experiência de voar e a vida na plenitude de uma gota de vinho.
Ecco, amica mia, la passione è così!

(28 de maio, 2010)


© Pietro Nardella-Dellova é Escritor e Poeta. Professor de Direito e Arte Literária em graduação e pós-graduação. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org/tex), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS (2009).

TEXTO DE PIETRO NARDELA-DELLOVA
PINTURAS DE ANA LUISA KAMINSKI

23 de mai. de 2010

Voz dos Olhos

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


(e. e. cummings)




Reminiscências


pende do galho uma paisagem com pássaro preso
como coração com árvore nevada dentro.
tempo de voltar às montanhas,
aos cumes, se cobrir de nuvens.

deserto de alma preenchido de sol.

II

deita-te na boca constelada.
o verbo foi maculado,
algumas crianças se perderam
e a infância ficou menor.
enlarguece a Casa
para caber as palavras infantis.


III

a terra alimentada pelo mistério de tua sede
amanheça girassol doado ao ventre.

(LUCIANA MARINHO)
.........................

"A coisa mais maravilhosa do mundo que podemos experimentar é o mistério. Ele é a fonte de toda arte e ciência verdadeiras. Aquele para quem esta emoção é estranha, que não consegue mais parar, admirar e maravilhar-se, está praticamente morto: seus olhos estão fechados."

(Albert Einstein)
...................


Fotomontagem de FLAVIO PETTINICHI

...........

10 de mai. de 2010

Véus, avessos, versões...




In-conclusão

Vou desenhando meus dias e noites
sobre o avesso ou direito da tela
compondo com cinzas e cintilâncias
fazendo da vida, tão ligeira e bela,
caminho com encruzos matizados
história de afetos entrançados
mapas e diagramas de errâncias
reflexos, reflexões e ressonâncias
da alma que transita pelo cosmos
te encontrando em letras e hiâncias!...


POEMA DEDICADO À STAËLL DI LUKKA
IMAGEM E TEXTO DE ANA LUISA KAMINSKI
(detalhe do quadro ELFO AZUL)

6 de abr. de 2010

MosaiKo MusiKal

"Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma." (GEORGE BERNARD SHAW)


Soneto das Definições


Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito,
à música das cores e do vento.


Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.


(Carlos Pena Filho)

Pintura de Greg Couch

RESTAURAÇÃO:...

procuro a paz que existe nas palavras
teimosamente
e às vezes é preciso raspar tantas camadas de pinturas sobrepostas
que quase desisto

palavras muito limpas e polidas
costumam cintilar como as estrelas

quem saberá
se existe paz nas estrelas?


(ADELAIDE AMORIM)

...................................................................
O poeta é o que busca
na palavra a dimensão do átomo.
O silêncio extremo por detrás
de cada fato.
O poeta é o etéreo e o ácido
na pele dos valores estáticos.

Estéticos são seus baralhos.

O poeta é o vapor barato e o
lance de dados.
O acaso e o atalho.

Macalé e Mallarmé
no mesmo saco;

O poeta é um guapo.

(LAU SIQUEIRA)

.........................

IMAGENS DO SLIDE: Artistas diversos.

4 de abr. de 2010

Pentagrama

Pintura de Salvador Dalí

PATCHWORK #1

imersa em cena de Dali
bebendo chispas/raios mel
dos olhos teus
lágrimas caindo no rio
pentagrama
compasso de folhas
acordes de pássaros
e voz navalha
de Tetê Espíndola


(BÁRBARA LIA, no blog "Chá para as Borboletas")



Pintura de Salvador Dalí

"a voz que voa mais alto
e fala do que não sente
é som vazio

por outro lado
sussurros podem ser
grito
feito em fios."


(ADELAIDE AMORIM, no blog "Inscrições")


Pintura de Matisse

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Caiu no álbum de retratos.


(Murilo Mendes)


Pintura de Paul Brent


Pintura de Vladimir Kush

18 de fev. de 2010

HORIZONTES AZUIS



HORIZONTE

Na vida encontro tantas coisa boas. O sol amanhecendo, escapulindo docemente e tingindo de dourado, rubi e turquesa a amplidão, a chuva que faz com que os passarinhos abram as asas, bico e peninhas para recebê-la em si, gorjeando de contentamento, além das plantas que parecem cantar a cada gota-dádiva recebida.
Poderia enumerar cada um destes milagres,todo momento, horas e dias, no entanto preciso te dizer que o que sempre me intriga na vida, além do constante maravilhar, é pensar o horizonte.
O fato perene é que de onde estiver e para onde voltar minha face, na direção de todos os pontos cardeais, sempre há um horizonte cheio de possibilidades, que parece esperar a partir do meu primeiro dia de vida. E ele está e sempre esteve lá.
Sei então que poderia caminhar em sua direção, de qualquer ponto, por toda a vida e quanto desejasse para, quem sabe um dia, conhecer uma lição prática de infinito. Estarei no ponto de partida, que é também o de chegada, que nos ensina que no dia em que seguirmos atrás do horizonte, princípio e fim se fundem, confundem e já não perduram mais quaisquer destes conceitos além do infinito, contínuum.
Talvez. É, quem sabe também seja este o conceito de vida. Talvez algum dia, sabe-se lá em que milênio, um "haja luz e houve luz" deu início a esta minha ou tua existência terrena para que sigamos perpetuamente, em linhas retas, abauladas, circulares, inteiras ou quebradas - não importa - vencendo ciclos, em direção ao horizonte telúrico, cósmico, sabe-se lá em que dimensão - já que são tantas - além das três que conseguimos compreender.
Sim, o horizonte é tão instigante quanto mágico, miraculoso. Minha definição é modesta diante de tanta grandeza. Faltam sinônimos, adjetivos. Mas ainda posso pensar, e para o pensamento não há limites. E por não ter limites, tanto para o pensar quanto para o desejo, me ocorre neste instante que de nada me valeria a imortalidade se não pudesse levar comigo certa dádiva maravilhosa. Pois, das incríveis mutações de nossa matéria, no surgir e desfazer-se, a cada ciclo, o único bem que poderemos manter na imortalidade são os sentimentos, o que pudermos sentir.
Destes, o amor é a benção absoluta. E é este que me serve, que espero, para o qual vivo. O amor, em todas suas manifestações. O supra-sumo da herança divina que há em cada um de nós e que, antes e depois que o fôlego da vida nos fugir, permanece e nos acompanha. Para sempre e sempre.
Interessante o vagar esgazeado dos pensamentos. Comecei no horizonte e terminei no amor. Como no infinito nada se finda, comecei do amor e...sigo para ver onde vai dar.

(LARA LUNNA)



Manuscrito del horizonte

A modo de un libro imaginario que pudiera escribirse con instantes, con notas inconexas y con imágenes, que quedasen así unidas en su propia elocuencia para enunciar algo intraducible: la vida que no sabe decirse buscándose en su horizonte.

Un manuscrito vivido, por lo que nos vive silenciosamente, que guardase la escritura de aquello por lo que vivimos. Un manuscrito que no existe, que siempre está por escribirse y reescribirse y que quedará por siempre incompleto. De páginas hechas de búsquedas y rastros. Una cartografía del asombro. El latido de una mirada que ve más allá de las superficies. Un manuscrito hecho de niebla y luces.

Un diálogo con el horizonte. Las semillas perdidas y escondidas en el desierto que aguardan la lluvia para germinar. El mar que desconoce su fuerza desgarrándose contra las rocas. Otra vida dibujada en una mirada inesperada que nos abre la existencia y los caminos. La aventura viva que somos y que habíamos olvidado, rescatada en la caricia de un alba que nos muestra la bahía que nos llama. El rastro unánime de lo que nos vivifica.

Un diálogo con el horizonte donde encontramos encarnada nuestra propia dignidad, nuestro mundo de posibilidades no vividas hondamente sentidas contra lo dado y clausurado.

(JUAN BAUTISTA MORÁN)



TEXTOS DE LARA LUNNA e JUAN BAUTISTA MORÁN
IMAGENS: PINTURAS de ANA LUISA KAMINSKI

1 de fev. de 2010

Miradas e miragens


Passeando por outros jardins de cores e letras, encontrei este belíssimo poema, que trago para partilhar com quem pousar por estas paragens:


Bajo el rocío de la ignorancia,
hoy cubren una suave manta de recuerdos,

mis pensamientos,
mientras que una lagrimas de sangre y alma,
se deslizan para morir en el mar,
recorriendo cada lado de unas mejillas,
que han tenido tus besos,
que han tenido tu sonrisa,
que han amanecido en el alba.

Bajo una estrecha sospecha,
pierdo mi ira, para convertirla en paz,
pierdo mi odio, porque le gana mi amor,
pierdo mis celos, porque nadie es dueño de nadie,
porque nadie es libre de los demás,
porque nadie es obra de los demás.

Bajo una mar de dudas,
llega la idea, la pasión, el confort, la calma,
la sonrisa que rompe el silencio,
la mirada que empieza en sonrisa,
y se escapa un beso en el aire,
y otro directo a las pupilas,

y otro que no es de nadie,
me lo guardo sirviente de mi corazón.

Bajo una luna llena,
dos almas solitarias van,
cogidas de la mano,
amantes son, de lo bello y lo justo,
amantes que se dan afecto, sinceridad y respeto.

Bajo un mundo dormido,
ya es amanecer, y te despierto con un beso,
con una caricia, con un abrazo,
con un buenos días, con una nueva ilusión.

Bajo estas letras, se esconden mi miradas,
una sonrisa que pincela el fondo de todo corazón,

unos colores, que simbolizan el amor, un te quiero,
y una vida con pasión.


(AUTOR DESTE POEMA: F. PEIRÓ )



IMAGENS: PINTURAS DE ANA LUISA KAMINSKI

26 de jan. de 2010

C0NCHAS, SONHOS, CARACÓIS E ANZÓIS AZUIS





Por vezes, pensamos
ser doces, desejáveis,
delicadas e estáveis
ou cremos ser o sonho
secreto de alguém...
Tentamos acertar o alvo
o centro do caracol
o buraco-negro do sonho
o lumiar do farol...
Sentimos alegria e leveza
e vemos asas fulgurantes
estrelas na alma amada
cuja configuração cintilante
é cosmo complexo e vicejante
que nos encanta e atrai...
Contudo, noutro instante,
rodopiamos, vacilamos
em volta do vórtice abissal...
Giramos e vamos ao fundo
do mar ou do mundo
se nos desdenha ou repele
este amor, num segundo...
Ou nos fechamos em concha
ao falhar e nos ferir
na tentativa vã e insistente
de compreender tal alma amada
tão benquista e desejada
em nosso íntimo universo...
Porém, de salto em salto, de vôo em vôo,
de queda em queda, ou tropeço em tropeço,
de tempos em tempos ou no vaivém dos ventos,
da tempestade à bonança, no balanço ou recomeço
às vezes nos surpreendemos com uma brisa imprevista
ao sermos chamadas, mais uma vez acolhidas
pela alma azul-lilás tão querida e mutante,
ornada por caracóis, protegida por espinhos,
coberta por líquens e anzóis,
enfeitada por sóis marinhos...
E então nos vemos no vértice,
no centro dos redemoinhos,
na dança das espirais
nos recônditos submersos
suspiros, sonhos e versos
entre conchas e coxas
a caminho de Vênus
nos paraísos siderais!...
Da imensidão celestial
os astros nos contemplam
sorridentes, complacentes
divertindo-se às custas
da poeira cósmica pulsante,
que vibra, chora, canta e ri,
destas partículas que somos
plenas de apetite e desejo,
de idiossincrasias e medos
de mistérios insondáveis
de fantasias e segredos
quase invisíveis mas duráveis...


TEXTO E IMAGENS DE ANA LUISA KAMINSKI


Dedico este poema à Amada Lunna Di Lukka

15 de jan. de 2010

RETRATOS BY KAMINSKY

www.retratosbykaminsky.blogspot.com

Faço pinturas de retratos personalizados, sob encomenda.
Abaixo, fotos de alguns trabalhos.
Interessados, contatem comigo através do blog ou e-mail.
Um FELIZ E ABENÇOADO 2010 a todos!!!


SONO CÓSMICO

há dias em que não sabemos
a que tribo pertencemos
a que rio
a que pântano
a que reino em flor
em barro
quinta-essência
carne e lágrima
matéria enigmática
poeira galáctica
que expele o futuro dos homens

mas não há nada
que os deuses confabulem
que valha perder o barulho
da chuva
e aí, tanto faz,
inseto, planta
a humanidade possível
a expressão do inexprimível
que oscila entre a solidão
e a beleza destinada à
construção das pétalas
ou das palavras

eu, mulher mandrágora,
bebo o orvalho da noite
e estico membros
seivas e raízes
enfeitiçada pela vida
alcanço o húmus
das árvores dos quintais
e, sem incomodar ninguém,
volto à terra
adormecendo em meu sono
de auroras boreais

(CÉLIA MUSILLI)




10 de out. de 2009

fulgurações

Olhares
esgarçados
perscrutando
labirintos
e abismos
escondidos
descobrindo
paraísos
e sentidos
fulgurantes
nos instantes
que cintilam
e tão rápido
se esvaem...

(Ana Luisa Kaminski,
fevereiro/2008)


ARTE DE STAËLL DI LUKKA


"Eu dormia... Um anjo sussurrou-me ... Acordei com teu nome no âmago, na alma, A tua imagem, desenhando-se nas nuvens brandas, mansas e alvas da minha manhã. No caminhar do dia, diáfana dádiva azul incrustando-se na rotina, nos móveis, nas minhas mãos, até desfazer-se. Agora, me deito, faço uma prece e percebo que ainda resta-me mais do que resquícios teus. Resta-me o ser-te, ser-me, o teu ser sem-fim, amalgamado em mim."
(LARA LUNNA, 2009)

9 de out. de 2009

farelos azuis...



Hoje flutuam na alma

restos de desejos rosados
cinzas estelares azuis
migalhas de sonhos violetas...


Cintilam sentidos soltos
cores
farelos de luas e letras...


(IMAGENS E TEXTO de ANA LUISA KAMINSKI)

3 de set. de 2009

PERSONAS & SONHOS: pinturas de Ana Luisa Kaminski e Staëll Di Lukka


Entre máscaras e matizes, personas e sonhos, cores e conteúdos, que sentidos se escondem, que desejos aparecem, que verdades se revelam? No mistério das mandalas e na infinda transmutação das formas, podemos entrever e ser vistas, interpretamos e somos interpretadas, podemos transformar e somos transformadas... No intuito de partilhar um pouco de nossas viagens íntimas e do complexo mundo interior de cada artista, planejamos a montagem desta mostra pictórica. Apresentamos em forma de imagens, que surgem nos semblantes sobrepostos às telas, frações, facetas e partículas pintadas destes complexos cosmos íntimos que tentamos construir e desvendar... Em cada tela ou trama, vórtice ou espiral, cor ou movimento, vislumbram-se parcelas das personas e sonhos dos quais somos urdidas... Em cada composição, ressurge o enigma do ser, do sonhar e do sentir, novamente re-velado, traduzido, inventado, nesta inesgotável decifração, na inefável mágica da Arte...


No dia 08 de setembro de 2009, acontecerá a abertura da exposição de pintura PERSONAS & SONHOS, das artistas Ana Luisa Kaminski e Staëll, na Morada dos Baís, em Campo Grande, MS. Todas as almas amantes da arte, amigas e amigos, estão convidadas!...



IMAGENS: pinturas de Ana Kaminski e Staëll Di Lukka

15 de ago. de 2009

tonalidades invernais


I
a roupa no varal entrega ao vento
a desbragada candura dos botões
e há uma canção de luz em andamento

II
além da mesa do almoço
o gato apaziguado nos espia

na tarde mansamente inaugurada
reaparecem as flores do futuro

: dentro de nós o vento se anuncia

III
o vento na janela subverte
o quarto de dormir nesse
bailado insurreto de cortinas

nos muros do jardim as vozes breves
em contraponto de intenções minúsculas

pensa por nós o vento e imprecatada
a lava fria da lua nos contempla

varrido o chão da noite
o tempo recrudesce em nossa cama

IV
o pássaro no mundo de suas grades
é ele mesmo quadrado diminuto
afeito ao vôo curto
mas
rumo ao céu
desfere a fantasia de seu canto


Poema de ADELAIDE AMORIM
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Imagem: Lukka pintando Lunna, inverno 2009

26 de jul. de 2009

Personas Aladas



Domingo frio, chuvoso e cinzento na ilha...
Os pensamentos viajam em variadas direções, a alma mergulha no anil, no ultramar, no abissal... As horas deslizam, entre suaves, serenas, sérias e indóceis, inquietas, intranqüilas: alizarim e pulsação infinda sob as camadas azuis e veladuras lilases!
Sempre é tempo bom para pintar: faça chuva ou sol, seja verão ou inverno, a vida se reinventa, germinam sementes e sonhos, as almas suspiram, palpitam e voejam!!!

IMAGEM: "Personas Aladas".
Pintura de Ana Luisa Kaminski

21 de jun. de 2009

Tons invernais, movimentos vitais

(Desenho de ÈVA JÁNOSY)

*Texto de JUAN BM e Imagens de ARTISTAS DIVERSOS

UN MÚSICO EN LA SOMBRA

Después de largos encuentros y días acariciando su cuerpo con tus manos suaves, cálidas y lentas, llenas de emoción y estremecimiento fuiste comprendiendo que hay una música en la sombra, una melodía en el silencio. La acariciabas y ella a ti. Os sentíais como dos instrumentos vivos en vuestras manos capaces de una sinfonía luminosa, una pequeña aurora en mitad de la penumbra en una habitación perdida.

(Desenho de STAËLL DI LUKKA)

Tocar la piel era tocar el alma y tocar el alma era reverenciar una vida, hacerla despertar, brotar, sentirla adueñarse del tiempo. Sonoridad de gemidos y arpegios, silencios vivos porque la piel es la metáfora de las entrañas, las cuerdas de un arpa oscura que unas manos acarician. Piel, límite y envoltura, espacio de la espera y esperanza, extraño lugar donde vive el ansia del otro. Orilla abierta y labrada en noches y días de soledad y que espera su despertar cuando se pose una mano que producirá un extraño sobrecogimiento y entonces se cumplirá el ser extrañamente devuelto a uno mismo porque alguien ha abierto una verja de un jardín olvidado donde nos encontramos siendo el sonido que nos conduce a la fuente donde brota lo vivo. Piel, límite, cerradura sin llave que abre una caricia real o simbólica. Llevas en la piel el molde de una mano que aún no has sentido y que encontrará allí su destino realizado. Eres como algunas esculturas que parecen entrañar un vacío que es un lugar para el otro capaz de culminarnos.

(Pintura de ANA LUISA KAMINSKI)

Entonces el mundo cobraba una dimensión nueva. El mundo, lugar de esa música escondida que habías empezado a oír. Era música la canción de los amantes, el lamento de los solos, la sencilla amistad con su blancura de inocencia. El vacío de algunas vidas. El mundo era también una sinfonía en la levedad donde el rocío del alba temblaba como temblaba el cuerpo en su inmensa fragilidad. Había una sinfonía que el bosque tocaba en tus entrañas, como las luces de aquel café que sumergían la estancia en una semioscuridad que acrecentaban la impresión que la decoración te provocaba. Aquel café que te recordaba a ese otro espacio vital que son los sueños con su olor a incienso, con su tapicería roja, desgastada y manchada que le daba un cierto aire de viejo vagón de tren que parecía llevarte a otros paisajes que podían palparse en su invisibilidad.

(Fotografia encontrada na net, desconheço o autor)

Y así descubriste que acariciar otra vida, tan valiosa como la tuya, tan lastrada como la tuya, es haber cumplido un extraño destino que te llenaba de alegría, y la alegría es también una canción que bailan las flores en una plaza soleada de domingo, en el abrigo de la amistad y del encuentro. Alegría, pájaros que surcaban el cielo en su belleza inconsciente.

(Desenho de ÈVA JÁNOSY)

Sí, hay un músico en la sombra y en el silencio, capaz de hacernos brotar las mejores notas de una melodía única e inesperada. Porque habías descubierto como quien descubre un misterio que no sólo podías hacer una extraña música sino también oírla mirando unos ojos, un semblante. Que todo lo que está vivo de verdad era pura música. Comprendiste que el destino de los hombres es que no se cumplan sus deseos, estando cercados y maltrechos pero que sí se cumplían sus caricias y las caricias podían viajar en el tiempo, podían viajar al pasado y desatar a un ser menesteroso terriblemente herido, podían liberar a los esclavos, cambiar el destino, vencer al miedo, dar la libertad y viajar al futuro aunque ya no estuviéramos presentes en él, quedar allí como una ofrenda sin nombre. Te lo decía tu memoria de lo vivo porque estaba llena de caricias y tu memoria de lo terrible.

(Imagem de JUAN BM)

Y entonces ¿dónde ocurría la vida que importaba, esa capaz de hacernos renacer una y mil veces? -te preguntabas- y buscabas anhelante esa orilla donde la vida puede ser un pequeño dios que nos salvará de la orfandad de otros dioses. Un pequeño dios que nos salvara incluso de nosotros mismos, porque era encuentro con lo que no somos. Ese encuentro que no es la supremacía de uno o de otro, ni el juicio ni el desprecio. No es adueñarse del otro ni aprovecharse de él. Demasiados altares de sacrificio en las historias personales y colectivas.

(Pintura de STAËLL DI LUKKA)

Esa orilla anhelada estaba aquí y ahora, presentías que no había que ir muy lejos, ni embarcarse en aventuras que eran en realidad una huída. Presentías que esa orilla era frágil, pero allí tenia lugar la música de lo mestizo, un lugar donde se escribe una partitura capaz de una alquimia tal. En realidad habías buscado esa orilla toda tu vida sin saberlo y tu vida sería una entrega a esa orilla anhelada.
(Pintura de NACKA KOVACIK)

28 de mai. de 2009

Arte Azul

Hoje trago para este espaço algumas pinturas de artistas cuja obra aprecio.
Espero que os visitantes de ÂNKORAS & ASAS também se deleitem com a dança de matizes.


ARTE AZUL de MADALENA LOBÃO TELLO (Chile)
"Eva Eterna". Pintura de Madalena Lobão Tello

"Vai, minha deliciosa tempestade, trabalha e tece, enquanto a semana tece em ti os seus dias, tentáculos de luxo e promessas, sob a fina urdidura de tuas vestes - minha potestade, meu álibi para almejar o que há de mais belo, meu fauno de mármore, minha vitória alada, meu oráculo anunciador de maravilhas, dize então a quem devo indagar quando voltas - aos deuses enfastiados em seus pedestais ou àquela estrada que se abre à nossa frente? Pois já não tenho o poder de inventar saudades, já não existem os dias sem ti (todos eles - imaginados ou vividos - nos pertencem), sóis e luas te levam e te trazem a salvo, sempre a salvo, meu amor, para que estejas em casa, quando o telefone tocar."
(LIVIA SOARES)
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ARTE AZUL de ERNA ANTUNES (Brasil)

"Cigana". Pintura de Erna Antunes

"Lanço-me assim como o vôo dos anjos e, suspensa nos ares das nuvens, minhas asas se fortalecem. Anteno-me como os astronautas. Tenho sede de ir mais alto, aos arredores da lua e de suas vilas abrigadas em crateras, pois, em sua brandura lunar, não se derreterá a cola com que grudei minhas asas aos braços. Pernoito hotéis estelares para o cansaço das horas, me desfaço das penas e molho de chuva meus sonhos de ave. Durmo, sobre um pálio azul e meu corpo é puro devaneio de céu. Meus encantos sutis de fêmea e ave, agora planam num sonho voador nas cercanias do teu mundo tão longe e perto de mim. Sou mulher para a busca do meu amor de lonjuras. Pouso à tua porta para que me abra a luz da tua casa, do teu quarto, da tua cama... Meu voo não tem hora, nem passagem, nem permissões de tráfico celeste e, assim fico ao calor que me aquece perto das tuas mãos que me passeiam. Fico horas assim, no proveito amoroso das tuas ousadias, esquecida do tempo, esquecida da minha metamorfose de ave."
(GENNY XAVIER)
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ARTE AZUL de STAËLL DI LUKKA (Brasil)

"Sereia". Pintura de Staëll Di Lukka

"Depois, o azul transformou-se em verbo e me deparei ao acaso com o texto magnífico do poeta Nuno Júdice que criou a “receita” da cor: "Se quiseres fazer azul, pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande, que possas levar ao lume do horizonte; depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada, até que ele se desfaça; despeja tudo numa bacia bem limpa, para que nada reste das impurezas da tarde. Por fim, peneira um resto de ouro da areia do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal. Se quiseres, para que as cores não se desprendam com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que possas distinguir entre uma e outra." (CÉLIA MUSILLI)

(CÉLIA MUSILLI)
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ARTE AZUL DE JOSÉ VENTURA (El Salvador, Canadá)

"Cellist". Pintura de José Ventura

"Amo-te em azul. beijei-te em azul claro
quando claros eram os lábios.
um azul forte correu nos meus ombros
quando os teus ombros foram mais fortes que os meus.

doce e suave era o azul que amei no teu corpo
quando o meu corpo começou a entardecer.
em azuis quase verdes desmaiei os meus olhos
quando os teus me devolveram um azul quase cinza."

(ISABEL MENDES PEREIRA)
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ARTE AZUL DE ANDRUCHAK (Brasil)

"Gatos". Pintura de Andruchak
Ciranda

Todo gato é um enigma
Todo olhar é um oceano
Toda traça come letra
Toda letra entorta ou plana

Todo céu tem um cometa
Todo mar tem um navio
Todo rio tem uma curva
Toda curva um desvario

Toda noite tem estrela
Todo sol tem meio-dia
Todo corpo tem a pele
Toda fêmea tem um cio

Toda mente tem lembrança
Todo beijo língua e gosto
Toda veia tem um pulso
Toda água tem um poço

(CÉLIA MUSILLI)
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ARTE AZUL de CRISTIANE CAMPOS (Brasil)

"Inverno". Pintura de Cristiane Campos

Mundos Invisíveis
Há sempre alguém que não vemos nos doando flores. Este pensamento trouxe o infinito para o peito dela e um deixar-se ali onde o humano cresce livre da morte do silêncio. Da morte da partilha. Da morte da solidão. Ela aninha-se na palma da mão da humanidade. O sagrado move-se em suas artérias como nos olhos dos apartados, dos feridos, dos sem céu. Ela aninha-se na respiração profunda das árvores. Caminha junto ao martírio dos cravos. Atravessa os inquebrantáveis em suas verdades. Atravessa os tolerantes entre iguais. Atravessa os catalogadores de seres. Descansa onde o bico do pássaro recolhe a seiva. E flore.
(LUCIANA MARINHO)
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ARTE AZUL de THIAGO REGINALDO (Brasil)

Detalhe de "Ninfa Aquática".

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ARTE AZUL de ANA KAMINSKI
Detalhe da pintura "Meditação Azul" de Ana Luisa Kaminski

FOLHAS VERDES

caminho feito de somas
restos deixados
temperamento do tipo tardio

no final
sempre folhas verdes
e novas

(LEILA LOPES)