
I
a roupa no varal entrega ao vento
a desbragada candura dos botões
e há uma canção de luz em andamento
II
além da mesa do almoço
o gato apaziguado nos espia
na tarde mansamente inaugurada
reaparecem as flores do futuro
: dentro de nós o vento se anuncia
III
o vento na janela subverte
o quarto de dormir nesse
bailado insurreto de cortinas
nos muros do jardim as vozes breves
em contraponto de intenções minúsculas
pensa por nós o vento e imprecatada
a lava fria da lua nos contempla
varrido o chão da noite
o tempo recrudesce em nossa cama
IV
o pássaro no mundo de suas grades
é ele mesmo quadrado diminuto
afeito ao vôo curto
mas
rumo ao céu
desfere a fantasia de seu canto
Poema de ADELAIDE AMORIM
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Imagem: Lukka pintando Lunna, inverno 2009