
Fio de luz
Sai da sombra
Vem prá luz
Que vai nascer
Sai do medo
Olha o dia
A amanhecer
Sai do frio
Olha o fogo
A acender
Acender
Sai de casa
Sai de ti
Desata os nós
Solta os versos
E a coragem
Solta a voz
Olha o sol
Que vai chegar
Pra te aquecer
Aquecer
Como um fio de lã
A tecer o amor
Como um fio de luz
A bordar a vida
Que vai chegar
Olha o sol que vai chegar
Pra te aquecer...
(Samuel Quedas/Lúcia Moniz)

De olhos bem abertos
Sua presença é uma carícia de dedos que vêm do sonho e, depois, rápidos como um animal alado, vazam as nuvens sem pistas. O onírico não deixa rotas, não tem rosa-dos-ventos, não desenha pontos cardeais, é apenas vontade, um desejo que se levanta como cortinas transparentes. Espio entre as dobras, há uma fresta de realidade onde todo o imaginário se eleva. Montanhas recortadas onde falta horizonte, uma paisagem de filmes e livros. Você acredita? Eu acredito nas nossas possibilidades como a promessa que se desprende do incenso, uma crença em cores, palavras, mantras. Uma pacificação que me invade quando você me responde. Um desassossego quando há lacunas entre as sentenças.
Se você não fala, todo silêncio grita sua falta. É preciso manter este diálogo que quase já alcança a primavera. Nos comunicamos entre as estações, numa renovação de frases que cruzam o espaço onde as presenças são nuvens que se elevam das florestas, uma linguagem indígena que escapa dos locais improváveis onde me encontro, onde você se encontra, sem que se aviste um endereço. Há entre nós um desejo insólito que cresce, sem que eu me prenda a seu abraço. Nestas manhãs em que o sonho se despede como um delírio de absinto, abro os olhos e sinto.
(Célia Musilli)

noturno
é noite sobre as folhas
da violeta que transita
sua delicada beleza
no chão do espaço
plena nudez de
luas e nuvens sobre
um cercado de luzes
(Lau Siqueira)