Espero que os visitantes de ÂNKORAS & ASAS também se deleitem com a dança de matizes.
ARTE AZUL de MADALENA LOBÃO TELLO (Chile)

"Vai, minha deliciosa tempestade, trabalha e tece, enquanto a semana tece em ti os seus dias, tentáculos de luxo e promessas, sob a fina urdidura de tuas vestes - minha potestade, meu álibi para almejar o que há de mais belo, meu fauno de mármore, minha vitória alada, meu oráculo anunciador de maravilhas, dize então a quem devo indagar quando voltas - aos deuses enfastiados em seus pedestais ou àquela estrada que se abre à nossa frente? Pois já não tenho o poder de inventar saudades, já não existem os dias sem ti (todos eles - imaginados ou vividos - nos pertencem), sóis e luas te levam e te trazem a salvo, sempre a salvo, meu amor, para que estejas em casa, quando o telefone tocar."
(LIVIA SOARES)
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ARTE AZUL de ERNA ANTUNES (Brasil)

"Lanço-me assim como o vôo dos anjos e, suspensa nos ares das nuvens, minhas asas se fortalecem. Anteno-me como os astronautas. Tenho sede de ir mais alto, aos arredores da lua e de suas vilas abrigadas em crateras, pois, em sua brandura lunar, não se derreterá a cola com que grudei minhas asas aos braços. Pernoito hotéis estelares para o cansaço das horas, me desfaço das penas e molho de chuva meus sonhos de ave. Durmo, sobre um pálio azul e meu corpo é puro devaneio de céu. Meus encantos sutis de fêmea e ave, agora planam num sonho voador nas cercanias do teu mundo tão longe e perto de mim. Sou mulher para a busca do meu amor de lonjuras. Pouso à tua porta para que me abra a luz da tua casa, do teu quarto, da tua cama... Meu voo não tem hora, nem passagem, nem permissões de tráfico celeste e, assim fico ao calor que me aquece perto das tuas mãos que me passeiam. Fico horas assim, no proveito amoroso das tuas ousadias, esquecida do tempo, esquecida da minha metamorfose de ave."
(GENNY XAVIER)
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ARTE AZUL de STAËLL DI LUKKA (Brasil)
"Depois, o azul transformou-se em verbo e me deparei ao acaso com o texto magnífico do poeta Nuno Júdice que criou a “receita” da cor: "Se quiseres fazer azul, pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande, que possas levar ao lume do horizonte; depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada, até que ele se desfaça; despeja tudo numa bacia bem limpa, para que nada reste das impurezas da tarde. Por fim, peneira um resto de ouro da areia do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal. Se quiseres, para que as cores não se desprendam com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que possas distinguir entre uma e outra." (CÉLIA MUSILLI)
(CÉLIA MUSILLI)
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ARTE AZUL DE JOSÉ VENTURA (El Salvador, Canadá)

"Amo-te em azul. beijei-te em azul claro
quando claros eram os lábios.
um azul forte correu nos meus ombros
quando os teus ombros foram mais fortes que os meus.
doce e suave era o azul que amei no teu corpo
quando o meu corpo começou a entardecer.
em azuis quase verdes desmaiei os meus olhos
quando os teus me devolveram um azul quase cinza."
(ISABEL MENDES PEREIRA)
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ARTE AZUL DE ANDRUCHAK (Brasil)

Ciranda
Todo gato é um enigma
Todo olhar é um oceano
Toda traça come letra
Toda letra entorta ou plana
Todo céu tem um cometa
Todo mar tem um navio
Todo rio tem uma curva
Toda curva um desvario
Toda noite tem estrela
Todo sol tem meio-dia
Todo corpo tem a pele
Toda fêmea tem um cio
Toda mente tem lembrança
Todo beijo língua e gosto
Toda veia tem um pulso
Toda água tem um poço
(CÉLIA MUSILLI)
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ARTE AZUL de CRISTIANE CAMPOS (Brasil)

Mundos Invisíveis
Há sempre alguém que não vemos nos doando flores. Este pensamento trouxe o infinito para o peito dela e um deixar-se ali onde o humano cresce livre da morte do silêncio. Da morte da partilha. Da morte da solidão. Ela aninha-se na palma da mão da humanidade. O sagrado move-se em suas artérias como nos olhos dos apartados, dos feridos, dos sem céu. Ela aninha-se na respiração profunda das árvores. Caminha junto ao martírio dos cravos. Atravessa os inquebrantáveis em suas verdades. Atravessa os tolerantes entre iguais. Atravessa os catalogadores de seres. Descansa onde o bico do pássaro recolhe a seiva. E flore.
(LUCIANA MARINHO)
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ARTE AZUL de THIAGO REGINALDO (Brasil)

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ARTE AZUL de ANA KAMINSKI
FOLHAS VERDES
caminho feito de somas
restos deixados
temperamento do tipo tardio
no final
sempre folhas verdes
e novas
(LEILA LOPES)