SILÊNCIOS
O tempo de introspecção é o tempo do reencontro. Pode ser a percepção de que há portas pedindo para serem abertas, pode ser o definitivo abandono de porões antigos.
Descer a si pode ser perder-se no não-encontro, mas pode ser, também, e quase sempre o é, a possibilidade de equilíbrio por entre o que se pensava não mais nos pertencer (e só nos pertence o eu que já fomos; os outros que não somos nós configuram nosso "estranho estrangeiro" e não nos dizem respeito).
A nossa vida é feita de Sim, costumeiramente seguido de Mas e seus difíceis penhascos. É nos penhascos que nos seguramos.
O silêncio é também um diálogo e um tempo grávido de acontecimentos, mesmo que seja tão diafanamente pólen.
(Glória Azevedo) Mirante das Inutilidades
ROSA CHÁ AZUL ANIL
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.
Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.
Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.
Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:
rosa chá + azul anil
Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.
E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.
- meu azul demorado!
(Bárbara Lia) Chá para as borboletas
FOTOGRAFOBIA
Guardo as imagens que recolho na memória.
Ou mesmo na falta dela.
Sou um pensador de memórias não vividas
para uma vida de tecer memórias antigas...
(Lau Siqueira)
QUARTA CAPA
O poeta é o que busca
na palavra a dimensão do átomo.
O silêncio extremo por detrás
de cada fato.
O poeta é o etéreo e o ácido
na pele dos valores estáticos.
Estéticos são seus baralhos.
O poeta é o vapor barato e o
lance de dados.
O acaso e o atalho.
Macalé e Mallarmé
no mesmo saco;
O poeta é um guapo.
(Lau Siqueira) Poesia Sim

DIVINAÇÃO
a matemática rendada do poema
pousa questões sem resposta
até onde a vista alcança
uma razão lançada sobre o poema
é uma rede vazia imaginária
de pressupostos ininteligíveis
a malha que tentou conter o poema
plena desfaz-se em fibras
e entrega sua razão ao mar aberto
a santidade que envolveu o poema
errante e transgressora
fura de irrestrições o seu tecido
porque o poema é trêmulo e transpira
cabe talvez num sonho dissoluto
mora no instante mesmo em que se esconde
(Adelaide Amorim) Inscrições
*Imagens: Pinturas de Ana Luisa Kaminski