Exercícios poéticos, apaixonados e patéticos: pequenos mergulhos e vôos, para compartilhar...

23 de mar de 2011

Pianos, palavras e pássaros...



Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo chama-se agora aqui o sono da erva a ligeireza livre
a nuvem sobre a página.



(Antonio Ramos Rosa)


Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.


(Julio Cortázar)


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu alimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra)


(E. E. Cummings)


A SOLIDÃO E SUA PORTA

Quando nada mais resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar,
Quando nada mais interessar,
Nem o torpor do sono que se espalha;
Quando, pelo desuso da navalha,
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar,
Deixando-te sozinho na batalha,
A arquitetar na sombra a despedida
Do mundo que te foi contraditório,
Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo o que é insolvente e provisório,
E de que ainda tens uma saída:
Entrar no acaso e amar o transitório.


[Carlos Pena Filho]



Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra...


(Antonio Ramos Rosa)

17 de mar de 2011

Silêncio e som...


Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.


Manoel de Barros


Mel silvestre tirei das plantas,
Sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.

(Trecho de "Distribuição da Poesia" de Jorge de Lima.)



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei.
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso.
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

(Sophia de Mello Breyner)

11 de mar de 2011

Solfejos, sonhos, ressonâncias...


SOLFEJAR

‎...E os sonhos passearam por aqui, deixando ressonâncias e poeiras de amores sobre o piano... luzes banhando retalhos do tempo, partituras de memórias...solfejos de lembranças... suavidades, sôpros, pulsações... (ALK)



PARTITURAS

Partículas de sonho, amor e luz
pousam sobre o piano nu
poeiras de estrelas, pulsações e sons
vagueiam pelo ar no eco dos instantes
flores fluidas, melodiosas, fulgurantes
flutuam nos pensamentos leves e alados
dançam e ressoam as partituras translúcidas
na pele, na memória, no veludo desenhados
voluptuosos versos, voláteis e errantes
na inebriante poesia e ânsia do infinito
...


(Ana Luisa Kaminski)

Les particules de rêves , d 'Amour et de lumière
déposent sur le piano nu
des poussières d'étoiles,
pulsions et sons dérivent dans l'air du moment
fleurs fluides, mélodieuses, flamboyantes
flottent dans les pensées, légères et ailées,
dansent et résonnent,translucides....
sur la peau, dans la mémoire ,
le velours conçu.........
vers voluptueux, volatiles et errants,
dans la poésie enivrante et nostalgie de l'INFINI......


(Tradução de Alda Lopes)




SURDINA

Quem toca piano sobre a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som,descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...


(Cecília Meireles)
In Flor de Poemas, 1972


ERRÂNCIAS E RESSONÂNCIAS

Da misteriosa trajetória vital, o que perdura?...
Partituras do amor, diagramas da dor, filigranas de alegria... registros de saberes, restos de memórias, poeiras de poesia...rastros de sentires, fragmentos das jornadas, farelos de histórias... sôpros de sonhos, sementes de desejos, palimpsestos de paixões... cicatrizes de conquistas, reflexos de segredos, lampejos de emoções, colapsos e vitórias... partículas de prazer, leves lembranças de luz, ecos de violões... traços de terror, marcas da coragem e estilhaços dos medos... vestígios de aventuras e vôos,ressonâncias de pianos, resquícios de passaredos...
.


(Ana Luisa Kaminski, março/2011)


me queimar em água
a espalhar nas veias
até o mar de fogo
de onde veio
essa dor
essa luz
esse ser
que não passa
de um meio


Alice Ruiz