
...Porque, enfim, existem as delicadezas: memórias-matizes dos momentos mais doces, dos instantes leves e luminosos que compartilhamos... dos vôos e pousos em jardins invisíveis, sensíveis, inventados... dos mergulhos e ardentes arrebatamentos e abraços, no espaço sideral de teu coração-cosmos viajante... Sim, sonho, escrevo e envio poemas, e rememoro, pintando estrelas, espirais e véus, pois no íntimo perduram as lembranças e luzes, estas cintilações, ainda átomos-faíscas de tantos encantos e ternuras!... E, por preferir pensar em flores e na suavidade dos encontros aéreos, das epifanias corpóreas e iluminações profanas, secretamente sagradas, componho cândidas canções em meus abismos e céus redescobertos, monto mosaicos amorosos com cacos coloridos de ventos transparentes e nuvens violeta, esboços de sorrisos, prazeres, presentes, perfumes, papéis, pedaços de palavras bebidas em tua boca, partículas de brilhos colhidos em teus olhos, beijos de uva em teus lábios líricos... Por não querer manchar este tesouro (com restos de mágoas, nódoas de amarguras ou espinhos de desconfiança) preservo o mais puro néctar de tal precioso afeto em meu sangue, seiva lilás em minh´alma, em marcas indeléveis daquela que hoje sou... Se intensifico, fantasio, se o discurso parece delirante??? Pode ser, apenas, por me sentir flutuante-tran-lúcida, estrela derretida, poeira ou música alada-i-lógica, luz e calor solar, reflexo azul de lua cheia, pétala rosada e etérea que te acaricia em sonhos... E creio, sim, que existem asas...
*(Imagem: detalhe de "Cabeça Lilás". Pintura de Ana Luisa Kaminski.)